24 novembro 2008

o seguro paga... não te preocupes...


bateram-me no carro... dia de verão com chuva... desço a rua santos pousada, paro (felizmente) com distância do carro da frente, que parou na passadeira, e começo a ouvir uma derrapagem.

olhei pelo retrovisor, e lá estava um carro a vir direitinho ao meu, e eu sem nada poder fazer, a não ser tentar “segurar” o meu para não bater no da frente com o impacto, o que não aconteceu devido a distância de segurança que deixo sempre.
saio do carro, a outra condutora também sai, e só me diz com ar de espanto “o carro não parou!!!”.

como se os carros tivessem vida própria...

e eu disse, “... pois não, não parou, porque à velocidade que vinha, com o piso molhado e chão em paralelo, carregar no travão a fundo, os carros não param... como um ar de magia.”
era naturalmente fruto da inexperiência de condução da jovem... pena é que alguns fiquem inexperientes o resto da vida.

bem tudo pacifico, dentro do possivel, tirando o facto que nesse dia deveria ainda apanhar um comboio para ir para braga trabalhar.
e tirando o facto que com o impacto, a traseira do carro foi para dentro e a mala do carro depois de aberta já não fechou.
depois, da papelada preenchida e assinada, tive de ir à oficina da marca, para me darem “um jeito” à mala para fechar, para não andar assim no fim de semana.

entretanto, fui dizendo que ia entregar os papéis à seguradora e que provavelmente na semana seguinte iria lá voltar para a peritagem.
quando conto a alguém que me bateram no carro, o que me dizem logo é: “foi por trás? não te preocupes, o seguro paga tudo. esses processos são rápidos”.

bem, o que é que o seguro paga?
paga apenas e só a factura da oficina, certo?
quem é que me paga, a manhã de trabalho que não fui trabalhar? com a agravante de nesse dia já não ter ido para braga e tive que ficar nos escritórios do porto.
quem é que me paga a gasolina que gastei para ir à zona industrial e voltar, para me arranjarem a mala até à peritagem?
deixo o carro para peritagem num dia de manhã, levo um carro de empréstimo com o depósito completamente na reserva, meto gasolina num carro de empréstimo, nesse mesmo dia ao fim da tarde vou buscar o meu carro, e entrego o carro de empréstimo ainda com alguma gasolina.
quem paga?
dois dias depois vou entregar o meu carro, para ser reparado (já com o aval da seguradora), vai lá ficar 3 dias, dizem-me. voltam a emprestar um carro, o mesmo de à dois dias atrás, novamente sem gasolina.

pergunto, quem paga tudo isto?
o transtorno, o tempo perdido, o conciliar de horários para este vai e vem de entregar e receber carros?

já para não falar, que o carro é reparado, e também é desvalorizado, mesmo sendo reparado na própria marca. quando for vender, vão logo detectar que já não tem a pintura de origem, que já foi batido, etc e tal.
mais uma razão para me tirarem ao valor do carro.
e quem é que paga essa desvalorização? o seguro?

claro que não, o seguro só paga única e exclusivamente o valor da factura de oficina.

27 outubro 2008

a página que gostei...


pediram-me para descrever uma página de um livro que tenha gostado, ou será que foi apenas uma página que tenha gostado, independentemente de ter gostado do livro?
é difícil definir qual o livro que gostei mais, e a página? essa então…

não sei quantos livros já li, mas páginas já terei lido milhares, milhares de páginas, como posso escolher uma?
às vezes não é a página que nos marca, nem o livro, às vezes é apenas um parágrafo ou uma frase que nos diz uma grande verdade, ou nos dá uma “luz” acerca de algo que não conseguíamos ver.
da mesma forma que o escritor por vezes escreve vinte páginas para poder aproveitar uma, o leitor às vezes lê um livro inteiro mas o que fica na memória é apenas uma ideia especifica de um qualquer parágrafo ou uma frase de um qualquer personagem, mas só por isso já valeu a pena termos lido o livro.

por mais vezes que se leia um livro, ele diz-nos sempre coisas novas, há sempre uma frase que parece que não estava lá da vez anterior, a atitude de um personagem que de uma outra vez nos pareceu irrelevante e agora achamos que faz toda a diferença no enredo; o livro é assim contém sempre as mesmas palavras lá impressas, e habilmente dispostas pela mão do escritor, mas somos nós, os leitores, que temos a capacidade de lhe dar uma outra dimensão, nem maior nem menor, mas diferente.

um livro, ou uma página marcar apenas pelo que está impresso, marcam-nos também pela envolvência do momento em que lemos, e da forma como estamos receptivos a essa informação.
creio que muitas das páginas ou determinado momento do livro, que ainda hoje nos lembramos apesar da leitura já ser longínqua, se tivessem sido lidas umas horas mais tarde ou no dia seguinte, não teriam tido a mesma força.
na verdade tenho muitas páginas que lembro e que gosto especialmente. são páginas que me deixaram, de uma forma natural, sentir o mesmo cheiro que rodeava os personagens, viver as mesmas dúvidas, angústias e alegrias, deixaram-me entrar na casa deles, e eu, deixei-os entrar na minha vida.

recordo-me das primeiras páginas de cada capítulo de “como água para chocolate”, começam sempre com uma receita de culinária e a sua confecção. e eu ali a ouvir o barulho dos tachos, quase que choro enquanto a cebola é picada, por vezes cheguei a achar que estava sentada ali naquela imensa cozinha, ao lado da tita, a ouvir os seus pensamentos.
são as páginas que gosto, as que me deixam viver uma outra vida.

de uma leitura mais recente, lembro-me das viagens que fiz com o “sul”, fui ao brasil, à tunísia, a cabo verde, enfim cada dia, cada viagem, mas de todas que o miguel sousa tavares me deu boleia, foi a de marráquexe, a que mais gostei. a história de um médico inglês que para lá foi viver, deixando para trás um vida sem sabor, sem amores nem desamores, mas que em marráquexe teve uma família numerosa, e a paixão pela paisagem que admirava do terraço no cimo da sua casa, marráquexe e as montanhas.
não posso deixar de partilhar o poema que ilustra essa sua paixão, e que foi feito e gravado pela família após a sua morte.

que pena que já não possas ver mais
as muralhas vermelhas de Marráquexe
e a multidão que ao teu lado caminha
na porta de essaouira

que pena que já não vejas
os jacarandás, as roseiras, as buganvílias dos jardins
que já não oiças o som da água nas fontes
que não escutes o silêncio dos pátios
que não vejas as estrelas nos terraços
que pena que já não possas alisar com a mão
os azulejos do palácio da bahia

que pena que já não vejas todas
as coisas que amávamos
que não caminhes, não sintas, não te percas
em marráquexe – a mais bela cidade do Sul.


livros mencionados:
como água para Chocolate – laura esquível
sul – miguel sousa tavares