27 outubro 2008

a página que gostei...


pediram-me para descrever uma página de um livro que tenha gostado, ou será que foi apenas uma página que tenha gostado, independentemente de ter gostado do livro?
é difícil definir qual o livro que gostei mais, e a página? essa então…

não sei quantos livros já li, mas páginas já terei lido milhares, milhares de páginas, como posso escolher uma?
às vezes não é a página que nos marca, nem o livro, às vezes é apenas um parágrafo ou uma frase que nos diz uma grande verdade, ou nos dá uma “luz” acerca de algo que não conseguíamos ver.
da mesma forma que o escritor por vezes escreve vinte páginas para poder aproveitar uma, o leitor às vezes lê um livro inteiro mas o que fica na memória é apenas uma ideia especifica de um qualquer parágrafo ou uma frase de um qualquer personagem, mas só por isso já valeu a pena termos lido o livro.

por mais vezes que se leia um livro, ele diz-nos sempre coisas novas, há sempre uma frase que parece que não estava lá da vez anterior, a atitude de um personagem que de uma outra vez nos pareceu irrelevante e agora achamos que faz toda a diferença no enredo; o livro é assim contém sempre as mesmas palavras lá impressas, e habilmente dispostas pela mão do escritor, mas somos nós, os leitores, que temos a capacidade de lhe dar uma outra dimensão, nem maior nem menor, mas diferente.

um livro, ou uma página marcar apenas pelo que está impresso, marcam-nos também pela envolvência do momento em que lemos, e da forma como estamos receptivos a essa informação.
creio que muitas das páginas ou determinado momento do livro, que ainda hoje nos lembramos apesar da leitura já ser longínqua, se tivessem sido lidas umas horas mais tarde ou no dia seguinte, não teriam tido a mesma força.
na verdade tenho muitas páginas que lembro e que gosto especialmente. são páginas que me deixaram, de uma forma natural, sentir o mesmo cheiro que rodeava os personagens, viver as mesmas dúvidas, angústias e alegrias, deixaram-me entrar na casa deles, e eu, deixei-os entrar na minha vida.

recordo-me das primeiras páginas de cada capítulo de “como água para chocolate”, começam sempre com uma receita de culinária e a sua confecção. e eu ali a ouvir o barulho dos tachos, quase que choro enquanto a cebola é picada, por vezes cheguei a achar que estava sentada ali naquela imensa cozinha, ao lado da tita, a ouvir os seus pensamentos.
são as páginas que gosto, as que me deixam viver uma outra vida.

de uma leitura mais recente, lembro-me das viagens que fiz com o “sul”, fui ao brasil, à tunísia, a cabo verde, enfim cada dia, cada viagem, mas de todas que o miguel sousa tavares me deu boleia, foi a de marráquexe, a que mais gostei. a história de um médico inglês que para lá foi viver, deixando para trás um vida sem sabor, sem amores nem desamores, mas que em marráquexe teve uma família numerosa, e a paixão pela paisagem que admirava do terraço no cimo da sua casa, marráquexe e as montanhas.
não posso deixar de partilhar o poema que ilustra essa sua paixão, e que foi feito e gravado pela família após a sua morte.

que pena que já não possas ver mais
as muralhas vermelhas de Marráquexe
e a multidão que ao teu lado caminha
na porta de essaouira

que pena que já não vejas
os jacarandás, as roseiras, as buganvílias dos jardins
que já não oiças o som da água nas fontes
que não escutes o silêncio dos pátios
que não vejas as estrelas nos terraços
que pena que já não possas alisar com a mão
os azulejos do palácio da bahia

que pena que já não vejas todas
as coisas que amávamos
que não caminhes, não sintas, não te percas
em marráquexe – a mais bela cidade do Sul.


livros mencionados:
como água para Chocolate – laura esquível
sul – miguel sousa tavares